Esse otimo texto pode parecer um pouco difícil pelos nomes em sânscrito para quem não tem conhecimento no assunto, mas ainda assim vale como um ensinamento, um meio de inspiração, um novo saber. Coloquei pensando nos meus alunos, na aula de amanha, no nosso dia a dia, no poder do Yoga em guiar e iluminar o caminho... Acredito tanto nisso que compartilho, todos os meus dias com todo meu amor, os valores que me ajudam a Ser!
Aprendendo com o Yoga a arte de saber existir
"Quando lemos o
Yoga Sútra de
Pátãnjali, nos deparamos, no primeiro capítulo (
Samádhi Pada), com a seguinte assertiva: "
Atha Yoganusasanam". Traduzindo, "Agora, o ensinamento do
Yoga".
Desse breve enunciado, podemos concluir que outra etapa antecedeu o ensinamento do
Yoga. Acredito que o
Yoga
surja para nós a partir do momento em que o ser humano, através da
busca pelo auto-conhecimento, percebe que para "ser" é preciso "saber
existir". Mas, como saber existir?
Existimos em vários níveis:
pensamentos, sentidos, corpo físico, enfim, convivemos com outros seres e
captamos energia de várias fontes diferentes. Como, por exemplo, a do
ambiente em que vivemos e freqüentamos, das pessoas que nos rodeiam, dos
alimentos, da natureza e, conseqüentemente, devolvemos essa energia de
alguma forma através de nossas ações, pensamentos, palavras, olhar e
tudo o que envolve a nossa movimentação pelo universo em busca de algo
que não está muito bem definido. Agora, começa o
Yoga.
Daí surge a necessidade de que, antes de caminhar rumo à meta do
Yoga, que é o estado de iluminação exaltado pelo
samádhi, façamos um bom estágio na fase preliminar rumo ao auto-conhecimento, exercitando a ética do
Yoga. Em outras palavras, assimilando as valiosas informações advindas dos
yamas e
nyamas.
Yama significa
controle ou
domínio. É o pontapé inicial, trazendo cinco proscrições éticas:
ahimsá - a não violência;
satya - falar a verdade;
asteya - não se apropriar de coisas alheias, não roubar;
brahmacharya - não desvirtuar a sexualidade; e
aparigraha
- não apegar-se. Esses refreamentos pretendem aniquilar a subjetividade
que surge do egocentrismo e prepará-lo para o estágio seguinte.
Os
niyamas são prescrições psicofísicas:
shauchan - a purificação do corpo;
santosha - o contentamento;
tapas - a austeridade ou esforço sobre si próprio;
swádhyáya - o estudo das escrituras do
Yoga e de si próprio;
Íshvara pranidhána
- que seria a entrega das ações ao Absoluto, a uma força suprema. Aqui,
percebemos a necessidade de desenvolver ferramentas que facilitem a
busca de algo que, de fato, desconhecemos: a nossa natureza. Pura, livre
e descondicionada. Sujamos a nossa existência com uma busca equivocada.
Ser "esperto" está longe daquilo que você realmente é e do que
realmente quer ser. Mas não sabemos disso. Nossa ignorância metafísica
nos afasta da sutileza e do conhecimento verdadeiro: a busca pela nossa
essência - o auto-conhecimento.
Quando nos deparamos com os
yamas e
nyamas,
percebemos como é difícil nos "desprogramar". Bloqueamos ou retardamos a
nossa evolução com armadilhas que a sociedade nos ensinou a montar para
nós mesmos: a mentira, a agressividade contra aqueles que nos ameaçam, o
uso equivocado ou parcial dos sentidos (ver somente aquilo que se quer
ver), o apego a pessoas, coisas e relacionamentos, o que se reflete num
boicote de se passar para a etapa seguinte. E assim caminha a
humanidade, sempre dando um jeito de parecer mais "esperta" do que
realmente é. O
yogi tenta desatar os nós, mas também precisa
perceber que, muitas vezes quem dá o nó é ele próprio. Por isso chega o
momento da prática e do estudo. Buscar a visão periférica. Abrir os
canais e sutilizar o corpo. Ver e querer ver a verdade. Mover-se.
Ligar-se. E que durante esse processo esteja presente o bom humor e a
pureza. E a fé de que, se nós estivermos fazendo o melhor para nós
mesmos e sem fazer mal a ninguém, o que tiver de ser será... Aí a nossa
existência começa a ter um brilho tão forte, que acaba se refletindo no
olhar. Um olhar de quem não se importa com essas miudezas que a
sociedade criou para nos encaixotar.
A nossa consciência oscila
do racional ao emocional constantemente. Ambas atreladas ao ego: o
veneno que aniquila e cega o homem. E quando a nossa expressão mais
sutil e verdadeira se manifesta, que é a nossa intuição, um sussurro da
nossa natureza, conseguimos perceber num gesto e num olhar de alguém
coisas tão grandiosas que ficamos extasiados. E sorrimos como crianças.
Começamos,
então, a entender o significado de existência, de saber existir. O
sábio que nos habita começa a nos guiar. Permitindo que as coisas fluam,
seguindo seu caminho sem se prostrar da sua consciência como vítima, e
sim como mero expectador. As coisas acontecem, mudam e nós apenas
acompanhamos essas transformações sem carregar a culpa de se ir adiante.
Nós não somos os nossos pensamentos. Nossa mente é capaz de criar
histórias, situações e obstáculos que nos cercam e nos aprisionam.
Precisamos arrancar essa casca e mergulhar fundo, bem fundo no Ser.
Resgatar a essência e privilegiar a nossa intuição, pois é essa que dá
vida àquela. Assim, humildemente, nos aproximamos do verdadeiro
significado do "saber existir". E, finalmente, percebemos que para
sermos felizes, basta apenas SER."
Por
Paula Goes (
Yoga Pro site)- 04 de Novembro de 2002